6# GERAL 29.1.14

     6#1 GENTE
     6#2 ESPECIAL  OI BRASIL, ESTAMOS AQUI!
     6#3 ESPECIAL  A MARSELHESA DO SUBRBIO
     6#4 SOCIEDADE  ELA NO QUER SAIR
     6#5 NEGCIOS  PEDRAS NO CAMINHO
     6#6 PROFISSES  LUGAR DE MULHER NO  NA COZINHA
     6#7 CINCIAS  NA CAMA COM BILL GATES

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Thas Botelho

A BAIXA-COSTURA
Quem tem coragem de passar a mo numa tesoura e, zact, cortar em dois um vestido Dior? KIM KARDASHIAN, claro. Com a interveno radical, pode mostrar mais da cinturinha conquistada a regime de fome depois do parto e a habitual abundncia dorsal. Esta, por sinal,  abordada com o maior profissionalismo. Um stylist contratado pelo mentor visual de Kim, o futuro marido Kanye West, adapta as roupas dela, em especial as calas jeans, ao derrire de propores titnicas. E nada de toscas preguinhas na cintura para reajustar as devidas propores. Tudo  refeito para que Kim deslize gloriosa, como fez na semana passada em desfiles de alta-costura em Paris. De sinnimo de breguice, ela virou objeto de disputa entre os mais finos entre os finos.

TUDO BEM NA ILHA DE PRSPERO
Nobres propsitos levaram a figurinista THAS ALMEIDA, 27, a entrar em um curso de artes cnicas. "Sonho em trabalhar com teatro, mas no pedirei favor a ningum. Quero tudo de mrito prprio", diz ela, que namora o ator FRANCISCO CUOCO, 80. Dividindo um apartamento com ele e trs cachorros, "nossos filhos", Thas j arejou o visual do companheiro: "Ele agora usa calcas mais apertadinhas e tnis coloridos". Quando acabar a participao especial na novela Amor  Vida, o tarimbadssimo ator vai encenar A Tempestade, de Shakespeare. Thas no espera mgica alguma e desconversa sobre as semelhanas com a atriz italiana Monica Bellucci. "Ela  linda, e dizem que pareo com ela, mas no falo muito isso, para no soar metida." 

DEVE SER ALGUMA COISA NA GUA
O presidente do Uruguai, Jos Mujica, encarna  perfeio a imagem de tiozo excntrico: mora em um stio, dirige um Fusca, usa chinelo e, bobeou, arranca a dentadura em pblico. De repente, aparece nesse quadro a perturbadora FABIANA LEIS, 33. Funcionria contratada como secretria da Presidncia, ela resolveu mostrar todo o seu potencial em fotos sensuais para uma revista. Constrangimentos? Nada. Em 2010, Fabiana fez algo ainda mais ousado, numa folhinha de borracharia. "Autografei umas 200. S faltou o presidente ter uma", diz ela. Bom para ambos. A mulher de Mujica, a senadora Lcia Topolansky, foi da luta armada, ficou presa por treze anos e  conhecida como La Tronca. 

O ROLEZO QUE ACABOU MAL
Fora as fs apaixonadas, algum ia sentir muito se JUSTIN B1EBER, 19, fosse deixado numa ilha deserta por um ano? Talvez em companhia de Miley Cyrus? Fica a sugesto para as autoridades americanas, uma vez que para a rehab o cantor j disse que no vai. Nem mesmo depois de ter sido preso em Miami por: 1. tirar racha com um Lamborghini alugado (de uma locadora pertencente ao piloto Felipe Massa); 2. sob efeito de cerveja, maconha e antidepressivos; 3. insultar os policiais que o revistavam. O fato de ter pais desajustados piora um tantinho a situao: a me foi quem lhe deu os remdios e o pai, alm de ter fechado ruas para o racha acontecer, vice doido, montado no dinheiro do filho. Durante a audincia com um juiz, por videoconferncia, Bieber ainda estava meio embalado e fez caretas, revirou a lngua pela boca e bambeou nos sapatos. Solto sob fiana, tomou uma cervejinha com o pai. 


6#2 ESPECIAL  OI BRASIL, ESTAMOS AQUI!
Bem-vindo ao pas da periferia, to prximo e s vezes to distante de tantos brasileiros. Formado pelas classes C, D e E,  um universo de 155 milhes de pessoas que compram mais de que a Sua e a Holanda.
FERNANDA ALLEGRETTI

     O sorriso metlico e colorido dos jovens que, nas ltimas semanas, tomaram conta do noticirio nacional, aps a exploso dos rolezinhos, deixa escapar bem mais do que os versos do funk ostentao com os quais eles fazem, s centenas, os seus barulhentos passeios pelos shoppings das periferias das grandes cidades brasileiras. No  que a trilha sonora desse novo e ruidoso fenmeno urbano carea de importncia; dela vai se tratar adiante (leia reportagem a partir da pg. 72). Mas o sorriso, em si, de aparelho, daquela garotada  um smbolo de status, de ascenso econmica e, sobretudo, de uma sadia vaidade, decorrente da autoestima elevada  ilumina algo de maior vulto. Para alm das roupas de grife e de traquitanas tecnolgicas de ltima gerao, itens obrigatrios para "os parca" e "as mina", os dentes cobertos de ferragens e elsticos compem a face mais visvel de um pas que existe dentro do Brasil, habitado pelas classes C, D e E. Um pas "fictcio", diga-se desde logo, contra qualquer insinuao de secesso, de apartheid social  e que, no entanto, revela o Brasil real. 
     Ele  formado pela parcela que representa a maioria da populao, um contingente de 155 milhes de pessoas que vem se consolidando como um gigantesco exrcito de consumidores, alimentados pela facilidade de crdito  no ano passado, eles gastaram, com produtos e servios em geral, 1,27 trilho de reais, segundo projeo do instituto Data Popular, especializado em pesquisas nas classes mdia e baixa e que atende empresas como Mastercard, Santander e TAM. Conforme levantamento do instituto, s os jovens de classe C consumiram em 2013 algo em torno de 129 bilhes de reais, contra 80 bilhes das classes A e B e 19,9 bilhes da D. 
     A pedido de VEJA, o Data Popular isolou dados e estatsticas das classes C, D e E  cuja renda familiar mensal mdia varia de 250 a 2344 reais  para criar, hipoteticamente, um pas, de modo a tornar explcito o seu vigor no mercado. Se existisse de fato, a, chamemos assim, "Repblica Federativa da Periferia do Brasil" teria um poder de compra que a poria no G20 do consumo mundial, ocupando a 16 posio no ranking das naes que mais gastam (o Brasil est hoje na stima posio). Estaria, dessa maneira,  frente, por exemplo, de Sua e Holanda. Para chegar a essa concluso, o Data Popular cruzou nmeros da Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE) e do Banco Mundial. 
     "O orgulho da periferia encontra-se muito atrelado ao consumo porque, pela primeira vez, essas famlias conseguiram romper com a histria de pobreza de seus antepassados", acredita o socilogo e cientista poltico Rud Ricci, autor do livro Nas Ruas, sobre os protestos de junho de 2013, a ser lanado em fevereiro. "Elas esto conseguindo gastar com suprfluos, viajar de avio, ter um smartphone. Os meninos do rolezinho so filhos dessa gerao que deixou a misria para trs e se inseriu na sociedade por meio do consumo." Durante dcadas, houve pouca mobilidade social no Brasil. Pobre era pobre e classe mdia era classe mdia. Nos ltimos anos, a ascenso social foi rapidssima. Compreensvel: entre 2002 e 2012, a renda familiar mdia dos 25% mais pobres cresceu 45% (a dos 25% mais ricos subiu 13%). 
     A referncia s viagens areas e aos telefones mveis conectados  internet ganha peso quando se analisam alguns dados recentes. De acordo com o Data Popular, 54% dos que tomaram um avio em 2013 pertenciam s classes C, D e E, que, por sua vez, tm em mos 58% dos smartphones habilitados (veja o quadro abaixo). 
     Naturalmente, no se est querendo dizer que, diante de indicadores to expressivos, a vida das classes menos favorecidas por aqui tenha alcanado padres escandinavos. Em 2012, 3,2 milhes de domiclios das classes C, D e E no tinham gua encanada; 9,2 milhes seguiam sem coleta de lixo e 19,4 milhes sem coleta de esgoto. Vive-se na periferia o paradoxo de ter um celular de ltima gerao e ser obrigado a carregar uma lata d'gua na cabea. 
     Como o Brasil de verdade, o pas fictcio exibe diversidade e diferenas regionais. A Periferia, com p maisculo, comporta distintas periferias. Diferentemente de So Paulo, por exemplo, no Rio de Janeiro "periferia" , muitas vezes, uma rea vizinha dos pontos nobres. L, morros recobertos por teias de favelas ficam, como se sabe, a poucos degraus dos glamourosos bairros da Zona Sul. "A geografia carioca pe a periferia no meio da cidade, aproximando, como em nenhum outro lugar do pas, as diferentes camadas sociais", diz o socilogo Marcelo Burgos, da PUC-RJ. "Elas frequentam a mesma praia. A cultura dos morros transborda para o asfalto, e os desejos de consumo da Zona Sul so aspirados e copiados nas favelas. H uma simbiose." 
     Muitas vezes, as diferenas podem ser flagradas entre periferias de uma mesma cidade. A Zona Sul de So Paulo, onde esto reas carentes como Capo Redondo e Graja, registrou em 2013, de acordo com a Secretaria de Segurana Pblica do Estado, taxas de homicdio e roubo 30% maiores do que as da Zona Leste, onde se localizam So Mateus e Guaianases. 
     Ressalvas feitas, pode-se voltar aos pontos de contato. "O que aproxima os moradores das periferias brasileiras  a aspirao de ascender socialmente e ter acesso a bons servios e a uma vida confortvel", diz Burgos. Desse desejo absolutamente legtimo decorrem outras aproximaes. A autoestima elevada e o orgulho mencionados antes esto por trs de um sentimento que se espalha e une diversas periferias: o apego s origens. H exatos treze anos, VEJA realizou uma reportagem de capa sobre essas regies. Ela discutia as implicaes do inchao da periferia. Naquela poca, o sonho de consumo do morador de bairros pobres no era comprar um tnis de marca  era mudar para um local melhor. Hoje, o progresso social no traz consigo a obsesso de ir morar onde vivem os integrantes das classes A e B  quando isso  possvel, claro, o que est longe de ser corriqueiro  nem frequentar os lugares que eles frequentam (shopping centers includos). "O orgulho de viver no subrbio tem a ver com a identidade cultural. Sinto que isso est ainda mais exacerbado agora, com o crescimento econmico desses lugares. Mesmo quem enriquece no quer sair de l", atesta o telenovelista Joo Emanuel Carneiro, autor de Avenida Brasil (2012), que fez sucesso pondo em cena personagens como o ex-craque Tufo (Murilo Bencio), um dolo "pobre-rico" que jamais deixou o bairro simples onde cresceu. 
     Muito dessa atitude de apego s origens est ancorado no empreendedorismo que, cada vez mais, se faz notar entre os integrantes das classes menos abastadas (alguns exemplos percorrem as pginas desta reportagem). O levantamento Data Favela, realizado pelo Sebrae e pelo Data Popular, com 2000 pessoas de 63 favelas brasileiras de nove estados mais o Distrito Federal, mostrou que, de um total de 11,7 milhes de brasileiros que moram naqueles lugares, cerca de 20% se sustentam com a explorao de um pequeno negcio prprio. Quarenta e sete por cento dos empreendedores iniciaram a atual atividade h menos de trs anos. 
     Diante de todo esse cenrio, no se estranha que a esmagadora maioria (87%) dos brasileiros situados nas classes mais baixas atribua a seus prprios esforos a melhora de sua vida, de acordo com o Data Popular. S 6% creditam tal mudana ao governo  a despeito das polticas sociais que tiraram 30 milhes de pessoas da pobreza entre 2003 e 2009 e do aumento real de quase 70% do salrio mnimo entre 2003 e 2012. Para os entrevistados pelo instituto, antes da mo governamental vm a famlia, Deus, a f, a sorte e at o patro. Tamanha descrena no governo se reflete na avaliao dos servios pblicos: de zero a 10. as classes C, D e E do nota 4 para a segurana e a sade, 4,5 para o transporte e 5 para a educao. No se imagine, entretanto, que a aparente despreocupao poltica dos participantes dos rolezinhos reflita o pensamento das classes de menor poder aquisitivo. Embora 54% de seus integrantes avaliem que o Brasil seria melhor sem partidos polticos, 81% consideram a poltica um assunto importante e 67% confiam que o voto pode mudar o pas. Considerando o tamanho da populao da Repblica da Periferia, no  difcil medir o seu cacife eleitoral no Brasil real. Para o presidente do Data Popular, Renato Meirelles,  preciso acompanhar com ateno uma provvel mudana de discurso nas prximas eleies: "O debate no ser mais focado no legado de cada partido, mas sim no que eles podem oferecer para o futuro. O jovem dessa classe emergente no est interessado no que Lula ou FHC fizeram; quer um poltico que melhore as condies de vida dele". 
     Conquistar a ateno, e o poder de compra, das classes mais baixas tem mobilizado potncias do mercado. Em 2005, 34% dos clientes da americana Procter & Gamble (P&G) no Brasil eram da classe C; cinco anos depois j representavam mais da metade. Para entender melhor tais consumidores, a empresa organiza periodicamente imerses em suas rotinas. "Uma das particularidades desse grupo  que o jovem da famlia tem alto poder de deciso, e  muito exigente", explica Gabriela Onofre, diretora de comunicao e marketing da P&G. O alto nvel de exigncia, alis,  um trao fundamental desse pblico, que costuma fazer pesquisa de preo e  muito criterioso em suas escolhas. Diz Gabriela: "H uma preocupao grande em consumir bons produtos, com a melhor tecnologia e a maior inovao". Isso para no falar do desprezo  falsificao. Dados do Data Popular indicam que, no ltimo ano, 73% das mulheres da classe AB compraram produtos piratas; na classe C, esse nmero foi de 53%. 
     No mundo do entretenimento, a ateno s classes menos abastadas tambm  grande. Pudera. No caso de comdias como De Pernas pro Ar, o estouro de audincia ocorre especialmente em cinemas da periferia (leia reportagem a partir da pg. 96). Com isso  de volta aos negcios , desde 2009 vem crescendo o nmero de salas em shoppings fora das regies centrais das cidades. At porque, segundo levantamento da Associao Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) realizado em 2012, 56% do pblico de classe C declarou ir queles centros de compras uma vez por semana (na classe A, foram 70%). 
     O entendimento da "classe C emergente" como "nova classe mdia" tem sido um ponto de polmica entre acadmicos e especialistas. "A definio de classe mdia  baseada estritamente em dados econmicos, no tem absolutamente nada a ver com capital cultural ou social", argumenta Renato Meirelles. "Os baixos valores dos seus ganhos so fruto de uma m distribuio da renda. Apenas 5% dos brasileiros ganham um salrio maior do que 4000 reais por ms e s 1% ganha acima de 11.000 reais. Logo, seria equivocado identificar apenas 5% da populao como classe mdia. No mundo, no  diferente. Cinquenta e quatro por cento da populao mundial ganha menos do que a classe mdia brasileira." 
     Quando cantam funk pelos corredores dos shoppings, os jovens rolezeiros filhos dessa classe social expandida podem estar querendo apenas se divertir  e no fazer das msicas hinos de protesto contra algo como a m distribuio de renda, uma das mazelas ainda persistentes entre os brasileiros. As letras entoadas so, muitas vezes, grosseiras, feias  mas o sorriso metlico dos meninos e meninas da fictcia Repblica Federativa da Periferia, pelo que ele representa do Brasil de verdade,  bonito de ver.

FAMLIA COMPRA TUDO
VEJA pediu a Yvone Gloder, de 69 anos, que retirasse de casa, na Zona Sul de So Paulo, todos os objetos de consumo da famlia, que ganhou dinheiro com a empresa de contabilidade da matriarca. O que se v  um catlogo do efeito da estabilizao da moeda e da oferta de crdito. So sete carros, oito notebooks, TVs de plasma etc. etc. Pelas estatsticas oficiais, incapazes de revelar o Brasil como de fato , eles so da classe A. "Itaim? Jardins? S vou se tiver de ir ao mdico", diz Yvone. 


O DOUTOR DA LAJE
Formado em teologia, com mestrado em educao e doutorado em psicologia social por uma universidade do Uruguai, Helbert Garandy Pitorra, de 33 anos, circula pelas ruas de terra da Vila Pinho, em Belo Horizonte, como se fosse um "famozinho" dos rolezinhos de So Paulo.  abordado com frequncia por pais de jovens que pedem para tirar fotos ao lado dele. "Eles acham que sou um bom exemplo para os filhos", afirma. "Educao  o que far a diferena." Sempre que saiu para buscar um canudo, Pitorra voltou para o lugar de onde veio. E ali ficar. "S aqui h churrasco em plena segunda-feira, ao meio-dia, brinca. 

A CERVEJA  O NOVO VINHO
H um ano, o tcnico de telecomunicaes Marcelo Ramos Andrade, 39 anos, experimentou uma cerveja premium em um restaurante no centro do Rio, gostou e pensou: por que no na favela do Complexo do Alemo, onde nasceu e mora? Juntou 30.000 reais, reformou a garagem do sogro e inaugurou o Bistr Estao R&R, que no tem nada de bistr, mas respira sofisticao: carta com 250 rtulos de cerveja. Em um sbado, chega a lucrar 4000 reais. "O mercado dentro das favelas est crescendo. Quem mora aqui tem produtos de ltima gerao em casa. As pessoas esto trabalhando mais e ganhando mais dinheiro. Os empresrios ainda no enxergaram isso, mas eu j", diz Andrade. 

TIJOLO SOBRE TIJOLO
Os condomnios geminados Pr do Sol e Sol Nascente, em Ceilndia, na periferia de Braslia, conquistaram recentemente um ttulo: o de maior favela do Brasil, com seus 79.000 moradores. No fosse Marcos Antonio Alves, de 30 anos, muitos no teriam um teto decente. Com 8000 reais ganhos depois da resciso de contrato de trabalho numa loja de mveis, ele montou uma pequena loja de material hidrulico em um municpio goiano. Funcionou. Percebeu que poderia lucrar ainda mais  margem do Plano Piloto e seguiu em frente. A Achei, a loja de Marcos, emprega hoje onze pessoas, tem dois caminhes novos e uma empilhadeira. 

O SEGREDO  O PREO
Era uma vez um bar que virou lancheria, como se diz em Porto Alegre, que virou pizzaria, que virou aougue e finalmente minimercado.  essa a histria de vida de Valdemar Marcos dos Santos, de 49 anos, que da venda de uma adorada motocicleta comeou a erguer um pequeno grande negcio: o Super Kan - de canguru, a mascote do empreendimento de belos saltos -, inaugurado em 1996 no bairro pobre da Restinga. O Kan j tem duas filiais na Zona Sul de Porto Alegre. Na rede h mais de 300 funcionrios. A compra mdia por pessoa (o chamado "ticket mdio  de 30 reais - ante 18 da mdia dos supermercados do Rio Grande do Sul. 

NEGCIO AFINADO
Uma luteria no corao da favela paulistana de Paraispolis soa como inveno de novela da Globo, no tempo em que as novelas no estavam l muito preocupadas em beber do cotidiano real do Brasil. Num espao de apenas 18 metros quadrados, Dirgenes Gomes dos Santos, 30 anos, e Alcides Mendes de Lima consertam violes quebrados, reparam fissuras em guitarras, trocam e regulam as cordas de contrabaixos. O faturamento ainda  modesto: 2000 reais mensais. 

REI DOS SHOPPINGS
A especialidade do mineiro Elias Tergilene, de 42 anos, que j vendeu esterco,  construir shoppings nas periferias e favelas. Neste ano, ele planeja abrir a primeira unidade no Rio, no Complexo do Alemo. Apesar de carioca, o shopping ter nome mineiro. No Uai Alemo, 60% das lojas sero comandadas por moradores treinados pelo Sebrae. O cinema funcionar  noite e, durante o dia, receber palestras de treinamento. 

SORRISO DE ORGULHO
Para pagar o curso de odontologia, Carla Renata Sarni, de 40 anos, vendeu muita roupa. Hoje, ela e o marido, Cleber Soares, de 37 anos, so donos da franquia de clnicas odontolgicas Sorridents, voltada para as classes C, D e E, com 193 unidades em dezoito estados. A primeira surgiu em 2001, na Vila Cisper, Zona Leste paulistana. "Como os tnis de grife, consertar os dentes virou sinnimo de status", diz Carla.  uma realidade diferente da retratada por Rubem Fonseca no conto O Cobrador (1979): "Ele olhou com um espelhinho e perguntou como  que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado". O dentista leva um tiro no joelho. 

A FORA DOS EMERGENTES
Fonte: Data Popular. Com nmeros de 2013

Renda mdia familiar mensal (em reais)
Classe A 14.285
Classe B 5329
Classe C 2344
Classe D 1002
Classe E 250

Se as classe C, D e E formassem um pas, ele seria...*
...o 8 em populao
...o 16 em consumo
* Estimativa feita pelo instituto Data Popular, a partir de dados da PNAD, do IBGE e do Banco Mundial.

COMO LIDAM COM O DINHEIRO
* Perfil dos correntistas de banco no pas
Integrantes das classes AB: 38%
Integrantes das classes CDE: 62%
* Usurios de carto de crdito
Integrantes das classes AB: 33%
Integrantes das classes CDE: 67%

NO AEROPORTO
* Viagens de avio no ltimo ano
Integrantes das classes AB: 46%
Integrantes das classes CDE: 54%

INCLUSO DIGITAL E TECNOLGICA
* Total de computadores
Integrantes das classes AB: 40%
Integrantes das classes CDE: 60%
* Total de smartphones
Integrantes das classes AB: 42%
Integrantes das classes CDE: 58%
* Total de TVs de plasma, Led ou LCD
Integrantes das classes AB: 45%
Integrantes das classes CDE: 55%
* Total de tablets
Integrantes das classes AB: 54%
Integrantes das classes CDE: 46%

O SMARTPHONE ROMPEU FRONTEIRAS
     Quando Steve Jobs apresentou o primeiro iPhone, em 2007, ele instantaneamente transformou os smartphones em um cone da elite financeira. No Brasil, onde a mdia salarial  de 1500 reais, poucos podem comprar um celular de mais de 2000 reais. Nos ltimos sete anos, porm, os celulares inteligentes seguiram a sina de toda tecnologia: baratearam. Valeu a mxima de Gordon Moore, fundador da Intel, que em 1965 estipulou que a capacidade de processamento dos aparelhos dobra, sem aumento de custo, a cada dezoito meses. Outra forma de olhar: dispositivos da gerao passada tm seu custo cortado. O preo de smartphones caiu 13% no Brasil, entre 2012 e 2013. Hoje, 60% dos aparelhos vendidos custam menos de 600 reais. " evidente a popularizao", diz Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. No to bvia  a transformao social. "Quem no tinha acesso  internet agora navega por dispositivos que viraram plataformas de comunicao para os que se sentiam isolados.  
     A partir do sucesso na classe C, a venda de smartphones no Brasil cresceu 122% no ltimo ano. So 80 milhes de brasileiros com acesso  rede 3G, seis vezes mais do que h trs anos. "No tenho internet em casa, s uso pelo smartphone", afirma a vendedora Jessica Leite, de 20 anos, moradora da Zona Leste de So Paulo. Na semana passada, ela visitou um quiosque do Google no shopping Aricanduva, no qual funcionrios ensinam a usar os aparelhos. "Acesso o Facebook, pelo qual me comunico, e o YouTube, para ouvir msica." Dos dez nomes mais buscados no Google.com.br em 2013, trs so de funkeiros. No topo est o MC Daleste, morto a tiros num show em 2013. O vdeo do assassinato, visto por 3 milhes de pessoas,  um dos fatores da popularidade. Mas no o nico: seu clipe So Paulo contabiliza 8 milhes de acessos no YouTube e o perfil de Daleste no Facebook tem 192.000 fs. O "efeito smartphone" s cresce. Uma pesquisa feita com jovens de 15 a 24 anos de reas paulistanas pobres mostrou que esses dispositivos so o item de consumo mais desejado por eles.
VICTOR CAPUTO

COM REPORTAGEM DE ANA LUIZA DALTRO E BELA MEGALE (SO PAULO); LVARO LEME E CECLIA RITTO (RIO DE JANEIRO); ADRIANO CEOLIN E ULLISSES CAMPBELL (BRASLIA); ISABEL MARCHEZAN (PORTO ALEGRE); KALLEO COURA (RECIFE)


6#3 ESPECIAL  A MARSELHESA DO SUBRBIO
O funk tem hoje 10 milhes de fs no pas.  muitas vezes uma msica vulgar, e h at funkeiros que exaltam o crime. Mas o batido representa como nenhum outro gnero a identidade e as aspiraes dos jovens da periferia.
SRGIO MARTINS

     Tchudum, tch, tch, tch, tch, tchudum, tch, tch, tch, tch, tchudum... So 2 horas da manh numa casa noturna de So Paulo e os frequentadores esto danando uma batida eletrnica repetitiva. Dali a uma hora e meia, MC Guim, o principal nome do funk ostentao, far seu show. acompanhado de um DJ e de duas danarinas, e com a participao especial do rapper Emicida. No clube vigora uma saudvel mistura social, mais rara em So Paulo, onde centro e periferia so muito distantes, do que no Rio. Encontram-se ali jovens de bairros suburbanos  os meninos com correntes douradas, as meninas com saia bem curtinha, e todos com roupas de grite  e tambm os chamados "playboys". Quando Guim finalmente sobe ao palco, a temperatura da casa parece subir. Por quarenta minutos, ele intercala canes de seu repertrio com sucessos de outros funkeiros, canta o rap do quarteto Racionais MC's e cita o Salmo 23 ("O senhor  meu pastor / Nada me faltar"). Nada falta mesmo: suas letras carregam uma tal profuso de marcas  carros, roupas, perfumes, bebidas  que at se poderia suspeitar de vultosos contratos de merchandising. No  o caso. Para Guim, natural da periferia de Osasco, cidade da Grande So Paulo, falar desses objetos de consumo  e, acima de tudo, adquiri-los   uma aspirao realizada, uma senha para a entrada na sociedade. O pblico no s entende como compartilha o sonho de Guim: muitos fs, no meio da dana, erguem garrafas de usque escocs como se fossem trofus. Festas e shows assim se repetem por outras cidades e clubes. Como tantos gneros musicais que vieram das reas urbanas mais pobres, o funk j conquistou parte da classe mdia. Mas  sobretudo entre a garotada da periferia que ele tem a ressonncia de uma Marselhesa: um hino de cidadania e identidade para os jovens das classes C, D e E. 
     Segundo estudo do Data Popular, instituto especializado em pesquisas de opinio nos estratos emergentes do pas,  a "comunidade funk" hoje congrega 10 milhes de brasileiros com mais de 16 anos, a maioria das classes C e D.  um pblico fiel: 77% deles escutam funk todos os dias e 50% vo a um baile funk pelo menos uma vez por ms. Esse pblico se divide quando perguntado sobre o sentido que a msica tem em sua vida: 22% consideram que o funk  apenas diverso, um ritmo bom de danar. Mas 26% acreditam que os MCs convidam a ambies que no cabem na pista de dana: o funk seria uma forma de superao. Em bom momento comercial, o funk representa uma possibilidade de carreira para quem sonha em se tornar MC (sigla em ingls de Master of Cerimonies, o cantor do funk e do rap). Uma nica cano de sucesso pode garantir boa base financeira, ainda que, como sempre aconteceu no showbiz, existam promessas de estrelato que acabam em fracasso (leia o quadro na pg. 79). Mesmo sem o status de um Naldo ou de um Mr. Catra, um funkeiro de algum talento pode garantir mais do que a subsistncia. "Um MC pode fazer trinta bailes por ms ao cache de 1000 reais. Em seis meses, ter condies de montar um negocinho na favela, comprar uma casa e um carro", calcula o DJ Marlboro, um dos precursores do batido. O sonho de todos, claro,  chegar s alturas. MC Guim fez fama e dinheiro  ganha em torno de 1,4 milho de reais por ms e o vdeo de seu Plaqu de 100 tem mais de 42 milhes de visualizaes no YouTube  sem comercializar discos. Mas as gravadoras descobriram que o funk  rentvel. Naldo Benny e Anitta trocaram o ritmo mais pesado dos "batides" pelo funk melody  verso, digamos, pacificada do funk da periferia carioca  e com isso alcanaram pblicos mais amplos. Naldo produz os prprios discos, mas tem um contrato de distribuio com a Sony Music. Anitta  do cast da Warner, que mais recentemente contratou MC Ludmilla (ex-MC Beyonc). A Universal tem MC Gui, outro exponente do funk ostentao. Casas de shows como o Barra Music, no Rio, incluram o funk entre as atraes frequentes. "Hoje existe um cuidado maior do funkeiro com a produo", diz Marcos Jnior, diretor artstico do espao. 
     H diferenas entre o funk carioca, mais malicioso e sexual (ou mais bandido), e o paulista, que tem mais influncia do hip-hop. O chamado "funk ostentao", que celebra o consumo e o luxo,  um produto paulista: suas razes esto na Baixada Santista, no litoral de So Paulo, com as produes do DJ Baphaphinha e com artistas como MC Boy do Charmes. Como tantos gneros populares  ax, sertanejo, tecnobrega , o funk, em qualquer lugar, irrita ouvintes que se pretendem mais sofisticados. Agora que o purismo nacionalista caiu de moda, ataca-se o funk brasileiro por no ser similar  sua matriz americana. Realmente, no h quase nada de James Brown no funk brasileiro de agora. Mas suas origens esto nos bailes do Rio de Janeiro dos anos 70, onde se tocavam funk e soul, americanos e brasileiros. Com o tempo, a batida sofreu alteraes. A princpio, o ritmo mais comum era o chamado Miami Bass, batida acelerada que surgiu na cidade americana da qual recebeu o nome. Hoje, o funk ganhou um batuque brasileiro, que parece sado dos terreiros de umbanda. A essa inveno rtmica se deu o nome de tamborzo. No, no  uma contribuio para a msica popular internacional da estatura da bossa nova  mas tem l sua originalidade. "L fora, o funk  reconhecido como a msica eletrnica brasileira", defende o cantor Mr. Catra. Muitos MCs no tm a mnima noo de tempo, mas h criatividade nas suas produes, sobretudo na conjugao inusitada de samples, que vo do grupo americano Talking Heads ao tema do desenho animado Tom e Jerry. Mais pertinente, ainda que s vezes tingido de moralismo estreito,  o ataque ao contedo sexual do funk. Muitas letras so incontestavelmente grosseiras. "Se as pessoas gostam de falar sobre sexo, por que eu no posso cantar a respeito?", justifica-se Mr. Catra. Ele  o cantor de Negolossauro rex, cuja letra  at publicvel: "Vem voc, a sua prima, pode chamar a sua amiga / Instinto de leo, pegada de gorila". 
     Os bailes funk, por seu carter improvisado, tambm configuram um problema urbano. Em So Paulo, a prefeitura proibiu os bailes de rua com carro de som, pela boa razo de que eles perturbavam a paz  as pessoas na periferia, afinal, trabalham e desejam dormir  noite. Ainda mais complicada  a interseco do funk com a bandidagem, que vigora sobretudo no Rio. Nos anos 90 surgiram nas favelas os chamados "proibides", bailes protegidos ou patrocinados por faces criminosas. O ''proibido" tornou-se quase um subgnero do funk, com letras que exaltam criminosos e, de to recheadas de gria, parecem falar em cdigo. Um exemplo  "a balinha do Salgueiro" de que fala uma das canes do repertrio do Nego do Borel: trata-se de ecstasy. O elogio aberto ao crime arrefeceu com a tomada de favelas pelas Unidades de Polcia Pacificadora. Em alguns casos, a UPP reprimiu bailes funk. Mas muitos sobrevivem, como o Emoes, na favela da Rocinha, que voltou  atividade aps um ano parado. 
     A despeito da profissionalizao de suas maiores estrelas, o funk ainda  uma atividade informal. Os MCs gravam em estdios caseiros e divulgam msicas e clipes em redes sociais e sites de vdeo. Muitos empresrios no tm o mnimo tino para negcios. "Geralmente, o primeiro empresrio de um funkeiro  o taxista ou o motorista que o leva para os shows", diz Kamilla Fialho, empresria de Anitta  responsvel por configurar a msica de sua cliente em um formato mais pop, o que rendeu uma vendagem de 200.000 discos. Leandro Gomes, empresrio de Valesca Popozuda, tambm faz seus clculos para agradar ao mercado de classe mdia. Mas no cogita suavizar o batido pesado de sua cliente: ''Hoje o funk reflete a cultura do carioca com muito mais propriedade do que o samba", diz Gomes. De fato, o samba j no traduz a alma da periferia como faz o funk. MC Guim fala de marcas, mas tambm de autoafirmaco. MC Smith, que j cantou o "bonde" do crime no Complexo do Alemo, faz retratos to realistas da periferia carioca que parecem roteiros de filme. MC Ludmilla e Valesca Popozuda assumem uma posio de confronto junto aos homens, sem queimar sutis. E, como j fez o samba, o funk tece o elogio ufanista da brasilidade. Em Pas do Futebol, que comea com "um salve  nossa nao", o paulista Guim reza ao Cristo Redentor, smbolo carioca. E proclama: "A rua  nossa, e eu sempre fui dela". A rua hoje  do funk. 

"Contando os plaqu de 100, dentro de um Citron /
 A nis convida, porque sabe que elas vm / 
De transporte nis t bem, de Hornetou 1100 / 
Kawasaki, tem Bandit, RR tem tambm / 
Nis mantm a humildade 
Mas nis sempre para tudo"
Plaque de 100, de MC Guim
A BATIDA DA SUPERAO
Natural de Osasco, na periferia de So Paulo, Guilherme Aparecido Dantas, o MC Guim, 21 anos, teve de driblar a desconfiana dos pais, que no queriam v-lo metido com funk. Foi esnobado por MCs e promotores de shows, que o deixavam horas esperando. Mas hoje ele  o grande nome do funk ostentao de So Paulo. S no gosta muito do rtulo: "Fao funk. 'Ostentao' foi um nome criado pela galera". A cada ms, Guim faz quarenta shows e ganha 1,4 milho de reais. Suas letras falam, sim, de produtos de consumo de luxo. Mais do que ostentao, porm, Guim trata de superao. "Quero mostrar quanto batalhei para atingir meu objetivo", diz.

"Essa mina recalcada no arruma um namorado / 
No mexe com o meu 
No sou de mandar recado / Fala mal de mim na roda dos amigos / 
Que coisa, garota, eu nunca fiz nada contigo!"
Fala Mal de Mim, de MC Ludmilla
QUE BEYONC, QUE NADA
Foi com o nome de MC Beyonc e letras que ameaavam periguetes e namorados infiis que a carioca Ludmilla Oliveira da Silva, de 18 anos, conquistou seu lugar no funk. Contratada pela gravadora Warner, ela trocou o nome artstico para evitar possveis problemas jurdicos e passou a fazer um funk mais melodioso, de olho em plateias de classe mdia (como se v no show  direita, na Barra da Tijuca, Rio). S no aceitou acertar a concordncia. "Nosso jeito de falar  esse: 'as mina pira'." O sucesso lhe permitiu comprar um apartamento na Barra da Tijuca  que pouco usa. "Prefiro ficar em Duque de Caxias (cidade da Baixada Fluminense), ao lado dos meus pais e dos meus amigos".

DIPLOMADO NO PANCADAO
Nego do Borel  imprevisvel. H algumas semanas, ele chegou com uma hora e meia de atraso  apresentao que faria numa casa noturna da Zona Oeste do Rio (e ainda assim teve de aguardar at o fim de um show de pagode antes de subir ao palco). No dia em que faria as fotos desta reportagem, atrasou-se novamente porque estava numa festa na casa do jogador de futebol Adriano. Mas poucos o superam no palco. Corre, pula, dana e at empina uma pipa enquanto entoa as letras de seu funk, algumas delas obscenas, outras com referncias perigosamente simpticas a traficantes do Morro do Borel. Leno Maycon Viana Gomes parou os estudos na 4 srie para se dedicar inteiramente ao pancado. Ele tem sua teoria sobre a diferena entre o funk paulista e o carioca: "Em So Paulo, o funk  mais ostentao. Aqui,  mais favela. Mas o funk  um s" 

Amante do dinheiro e do perigo 
Mau exemplo a ser seguido / 
Maquinista do trem-bala 
Odiado e perseguido, porm 
Mas com o sistema o desabafo  no gatilho / 
Eu no t desamparado 
Porque Deus  meu juiz, 
Jesus Cristo advogado, Amm
Vida Bandida 2, de MC Smith
O MC DO PROIBIDO
Em 2010, Wallace Ferreira da Mota, o MC Smith, foi preso pela polcia do Rio, acusado de apologia do trfico de drogas. Smith era um dos principais intrpretes de proibido, funk que tece loas a faces criminosas. O processo no foi adiante. O MC manteve o discurso empenhado e agressivo, como se v em Vida Bandida 2  mas maneirou: Vida Bandida 1 at listava armas usadas pela bandidagem. Em maro, Smith estreia no cinema, no filme Alemo. Seu papel: um traficante. 

Acredito em Deus e fao ele de escudo /
Late mais alto que daqui
eu no te escuto /
Do camarote quase no d
pra te ver /
T rachando a cara,
t querendo aparecer"
Beijinho no Ombro, de Valesca Popozuda
A CONQUISTA DAS PATRICINHAS
A carioca Valesca dos Santos gosta de se referir a si mesma na terceira pessoa, como tantos famosos. "Beijinho no Ombro combinou perfeitamente com a Valesca Popozuda", diz, referindo-se ao seu ltimo single. O vdeo, uma tentativa kitsch de imitar os clipes de cantoras americanas de R&B, foi visto at agora por mais de 3 milhes de pessoas e ganhou um tipo de pblico que no tinha muito estmago para suas composies. "Conquistamos as patricinhas que no queriam saber da Valesca", diz Leandro Gomes, o Pardal, empresrio e ex-marido da funkeira. Ele a descobriu h treze anos, trabalhando como frentista de um posto de gasolina ("Sei trocar pneu", gaba-se a cantora). Valesca, at ento, era s frequentadora de bailes funk e danava bem. Gomes incrementou outros talentos da moa, com a aplicao de 1100 mililitros de silicone na regio gltea e de 970 mililitros nos seios. F da cantora americana Beyonc, ela se recorda emocionada do show a que assistiu em Nova Jersey: "Peguei na mo de Beyonc.  gelada".

O BONDE DO QUASE L
A mitologia do pop no pode passar sem artistas de sucesso que caem no ostracismo. No  diferente com o funk. Hoje com 32 anos, a mulher que um dia foi conhecida como MC Vanessa Pikachu voltou a ser Vanessa Ferreira. Pikachu despontou no incio dos anos 2000 com um funk que comparava o insuportvel monstrinho do desenho Pokmon com certa parte da anatomia masculina. Mas suas msicas seguintes no emplacaram. "O azar de Vanessa foi surgir num perodo em que funkeiro fazia show apenas em clubes de subrbio ou na favela. Nunca tocou em boates, como a Anitta e o Naldo fazem hoje", diz o DJ Tubaro, radialista e produtor. A desiluso de Vanessa com a carreira chegou ao limite quando ela se viu preterida por outra funkeira na gravao do DVD do MC Bola de Fogo, no qual cantaria Atoladinha. Ela hoje d aulas de educao fsica em uma academia (embora sua me sonhe com o retorno da filha ao batido). Diz que foi mal assessorada: "Meu empresrio era o DJ que me deu a primeira chance num palco. Ele no tinha experincia". O trio Os Originais no desistiu do funk, mas est com a carreira emperrada em uma disputa judicial. Com outro nome - MC Federado e os Leleks -, eles estouraram com Passinho do Volante (aquela do "ah lelek lek lek"). Edmar Santana, o MC Dieddy, o primeiro empresrio dos Originais, e Rmulo Costa, proprietrio da equipe de som Furaco 2000, disputam na Justia os direitos sobre o Passinho do Volante. Enquanto o caso se arrasta, Paulo Victor, Alan Johnson e Alex Jnior esto impedidos de cantar seu maior sucesso (hoje no repertrio de outro grupo, que assumiu o nome MC Federado e os Leleks). Rebatizados de Os Originais, eles lanaram a cano Desloca, que esperam ver estourar na Copa do Mundo. O caso de Vanessa e o dos Originais no esto entre os mais dramticos do funk. Gor, da dupla Mrcio e Gor, suicidou-se em 2000 porque no conseguia repetir o sucesso de A Distncia. MC Naldinho, de Um Tapinha No Di, largou o funk pela religio evanglica, trajetria que no  incomum entre artistas dessa vertente lasciva. "A igreja evanglica  a psicanlise da favela", diz Jlio Ludemir, autor de 101 Funks que Voc Tem que Ouvir Antes de Morrer. 


6#4 SOCIEDADE  ELA NO QUER SAIR
Valrie Trierweiler continua a se comportar como primeira-dama. Pior para Hollande, o prevaricador.

     Para um homem que trai, e no quer mais saber de conservar a unio conjugal, no existe situao pior do que a da mulher trada que perdoa. Valrie Trierweiler  primeira-dama, primeira-concubina, ningum sabe dizer qual  o seu status atual  insiste que desculpa o presidente francs Franois Hollande pelo seu caso com a atriz Julie Gayet. Depois de sair do hospital, onde permaneceu durante uma semana, por causa de uma crise nervosa, ela se isolou  ou foi isolada  em La Lanterne, apndice do Palcio de Versalhes convertido em uma das residncias oficiais da Presidncia da Repblica. Est na companhia de uma amiga, e ficou com um nico telefone celular  os demais lhe foram gentilmente retirados. Em regime de semiliberdade vigiada, Valrie anunciou na ltima sexta-feira que partiria para a ndia neste fim de semana, a convite de uma ONG que combate a fome. Um compromisso assumido antes de o escndalo ocorrer. Viajar, portanto, na condio de primeira-dama, pois como tal foi convidada. 
     Valrie fez saber que, alm de perdoar o prevaricador, quer uma sada digna  o que, pela sua atitude at o momento, significa continuar no Palcio do Eliseu. A sua advogada chegou a aventar, de maneira enviesada, um acordo de separao, para logo depois ser desautorizada pela cliente. Enquanto isso, Hollande faz cara de paisagem. Limita-se a afirmar  que "ela est melhor" e segue a rotina de viagens. Visitou, sem trocadilho, os Pases Baixos sozinho e esteve no Vaticano desacompanhado  onde foi recebido, todo mundo notou, por um papa de cenho franzido. Afinal de contas, a "filha mais velha da Igreja", como a Franca  conhecida, aprovou o casamento gay, facilitou ainda mais a prtica do aborto (agora as mulheres no precisam de justificativa burocrtica para interromper a gravidez), quer implantar o suicdio assistido e, para culminar do ponto de vista catlico, tem um presidente que nunca se casou com as mulheres com quem morou e sai escondido na garupa de uma lambreta para encontrar-se com a amante divorciada. 
     At 11 de fevereiro, os franceses devero, finalmente, saber se Valrie permanecer ao lado de Hollande ou no.  a data da visita aos Estados Unidos, e o protocolo inclui encontros dela com Michelle Obama. Como ex-mulher  um perigo, especialmente para polticos, tudo o que o presidente e o seu partido socialista no querem  uma Valrie furiosa. Imaginem-se as negociaes em curso. Por falar em fria, no  verdade que, quando soube da notcia, ela tenha quebrado mveis do sculo XIX e vasos de Svres do Eliseu, no valor de 3 milhes de euros. O prejuzo foi bem menor. E Julie Gayet desmentiu a gravidez. A frase que resume o affaire  de um amigo da famlia da atriz: " uma verdadeira histria de amor, no no momento certo nem com as pessoas certas. Mas isso acontece". 
MRIO SABINO, DE PARIS


6#5 NEGCIOS  PEDRAS NO CAMINHO
At um gigante do varejo como a Amazon sofre para se viabilizar comercialmente sob o impacto do custo Brasil.
THIAGO PRADO

     Ao anunciar sua entrada no mercado editorial brasileiro, em 6 de dezembro de 2012, a Amazon, gigante americano da venda on-line, apostava que aquele seria o Natal do Kindle, o pequeno leitor digital que d acesso a um universo de milhes de livros. Mas no foi. O primeiro obstculo apresentou-se logo na largada: o lote inicial ficou retido na alfndega de Vitria, no Esprito Santo, aguardando liberao da Anatel, e s pde comear a ser vendido duas semanas depois. De l para c, tem sido uma dificuldade atrs da outra. Imprensada entre os impostos altssimos  por causa deles, seu leitor aqui  o mais caro do mundo , os labirintos da burocracia, a feroz resistncia das livrarias e a falta de mo de obra especializada (a vaga do nmero 2 da operao levou meses para ser preenchida), a Amazon, um portento com faturamento de 61 bilhes de dlares em 2012, completou um ano de atividade no pas em marcha lenta. Trata-se de um caso emblemtico de como o custo de fazer negcios no Brasil pode minar as intenes at mesmo de uma empresa que tem poder de vida ou morte em seu setor. 
     Apenas 60.000 Kindles foram vendidos at agora no Brasil, contra 3 milhes de iPads. Um problemo, j que o Kindle representa arma indispensvel na fidelizao de clientes:  fcil de carregar, fcil de ler em qualquer lugar e nele  faclimo fazer download dos milhes de e-books  venda na Amazon  este, seu negcio mais lucrativo na livraria. Erro de estratgia? No exatamente. A Amazon sabia o que a esperava  preparava a vinda desde 2009 , s que o chamado custo Brasil saiu mais caro do que o previsto. O peso dos impostos  um bom exemplo. A empresa tinha plena conscincia dele, tanto que contratou Welber Barral, ex-secretrio de Comrcio Exterior do governo Lula, para batalhar no Congresso por um projeto de lei que, em nome da cultura, isenta o Kindle de impostos; o lobby deu resultado no Senado, mas ainda se arrasta na Cmara. Com isso, o preo ficou nas alturas: o Kindle simples est custando 299 reais. O mesmo aparelho sai pelo equivalente a 260 reais na Inglaterra, 180 reais na Frana e 150 reais nos Estados Unidos. "Se zerarem os impostos, como aconteceu em outros pases, o preo se reduziria 60%", afirma Alex Szapiro, presidente da Amazon no Brasil. 
     Alm de caro, o Kindle  difcil de encontrar. As livrarias brasileiras se recusam a vend-lo, sob o argumento (justificado, alis) de que a Amazon  uma mquina de preos baixssimos que j levou  falncia redes tradicionais. Em demonstrao explcita do exacerbado protecionismo do mercado, Marclio Pousada, ex-presidente da Saraiva, a maior rede de livrarias do pas, chegou a telefonar para os donos de editoras ameaando boicotar quem firmasse contratos favorveis demais com a Amazon. Quiosques montados em shoppings fecharam por falta de compradores, e s agora a empresa parece estar, enfim, a ponto de firmar contrato de fornecimento com uma grande rede varejista. Tambm emperra os negcios da loja virtual brasileira o fato de que, dos 2 milhes de ttulos oferecidos, apenas 30.000 so em portugus. Por causa, em parte, da presso das livrarias e, em parte, de sua prpria inao, at recentemente o e-book no era prioridade nas editoras. A Amazon veio sacudir essa morosidade. Para atenuar a preocupao dos livreiros e estimular a produo de livros digitais, a empresa aceitou at uma clusula indita em seus contratos; nas promoes que fizer, o preo do e-book, que j  30% menor que o do livro de papel, pode baixar no mximo 10%  nos Estados Unidos, no h limite. 
     Atualmente, todo novo ttulo lanado no Brasil tem seu equivalente digital, mas poucos dos antigos esto disponveis. "O problema  que renegociar velhos contratos d muito trabalho", explica Ricardo Garrido, diretor de operaes do iba, empresa do Grupo Abril que produz e comercializa ttulos digitais. Diante de tantos entraves, a mdia diria de e-books baixados na loja brasileira da Amazon no passa de 3000, e a operao representa apenas 1% do faturamento global da empresa  mesmo assim, ela  lder de vendas de livros digitais no Brasil (detm 40% do mercado), seguida da Apple (20%) e do Google (10%). Outra luta inglria, esta no s da Amazon, tem sido travada contra a pirataria. No ano passado foram rastreados 108.279 links para downloads ilegais de livros por brasileiros, quase 50% a mais do que em 2012, de acordo com a Associao Brasileira de Direitos Reprogrficos. 
     Criada em 1994 para vender livros fsicos on-line, a Amazon comercializa de ostras a motor de lancha e tem livrarias virtuais em treze pases. Em busca de alternativas agora que as vendas de e-books deixaram de aumentar em praas tradicionais, como Estados Unidos e Inglaterra (onde correspondem a 20% do faturamento das editoras), e avanam lentamente em outras, como Frana e Alemanha, a empresa decidiu apostar em economias emergentes; so mercados difceis, mas promissores, como Mxico, ndia, China e o prprio Brasil. Por aqui, somente 3% dos livros vendidos so digitais. Impvida diante dos obstculos, j anunciou que em maro ou abril comear a vender livros fsicos aqui, comprando nova briga com as editoras  para escapar do Judicirio brasileiro, a empresa tenta emplacar uma clusula segundo a qual qualquer desacordo ser decidido em cmaras de arbitragem, e em ingls. Aos leitores, s resta torcer por um acordo que lhes traga livros mais baratos e mais acessveis. 

Amazona.com
PROTECIONISMO - Temendo o poder de fogo da Amazon, as livrarias boicotam seu e-reader.
IMPOSTOS - O peso dos tributos faz do Kindle brasileiro o mais caro do mundo.
BUROCRACIA - O primeiro lote de Kindles ficou retido na alfndega. 
PIRATARIA - Os links para downloads ilegais de livros aumentaram 50% no ano. passado
MO DE OBRA - Falta gente especializada para cargos importantes.
AS MOSCAS - Quiosque montado em shopping center para vender Kindles: com o preo nas alturas, a maioria fechou.


6#6 PROFISSES  LUGAR DE MULHER NO  NA COZINHA
Pelo menos nas profissionais. Mas uma nova gerao de chefs jovens e esforadas dribla os rigores fsicos e as equipes masculinas relutantes para poder comandar restaurantes.
THAS BOTELHO

     O ambiente de trabalho delas  uma mistura de submarino com mina de carvo. A temperatura ambiente chega a 45 graus e as panelas cheias de alimento deixadas em suas mos, frequentemente queimadas, pesam mais de 20 quilos. Frigideiras borbulhantes, liquidificadores e coifa fazem um barulho infernal e arrastar sacos de lixo no  tarefa s dos recm-chegados  brigada. Ser chef de cozinha, profisso hoje valorizada e glamourizada, tem pouco ou nada a ver com as roupas elegantes e a maquiagem impecvel que a sedutora inglesa Nigella Lawson desfila em seus programas culinrios de TV. Comandar uma cozinha profissional  um trabalho cerebral, quando se criam novos pratos e combinaes diferentes so testadas, e brutalmente manual na rotina diria  alm de ter uma atmosfera hierrquica, de organizao quase militar, onde reinam machos dominantes ou machos semidominados. Tal como dirigir uma orquestra sinfnica ou comandar um gigante do Vale do Silcio, atingir o topo da pirmide culinria ainda  para poucas mulheres. Todos os chefs dos 26 restaurantes com trs estrelas do Guia Michelin so homens. Na lista dos cinquenta melhores feita pela revista Restaurant, a mulher com melhor colocao, a basca Elena Arzak Espina, divide o oitavo lugar com o pai. 
     "Dirijo uma equipe com dezesseis homens, todos mais velhos que eu, e apenas uma mulher. Num ambiente assim,  comum que eles demorem para obedecer s nossas ordens ou digam que no vamos aguentar carregar panela e que vamos desistir rpido", diz Tssia Magalhes, que tem apenas 24 anos e  chef de um restaurante paulistano de alta qualidade, o Pomodori. Tssia conseguiu a sua chance como chef num estabelecimento respeitado por mrito prprio: no teve pai que comprasse um restaurante para ela comear por cima, foi aprendiz em restaurantes da Dinamarca, por baixo do engomado dlm (a tnica dos cozinheiros) tem vrias cicatrizes de queimaduras e de cortes de faca. Maquiagem no rosto delicado, ela s ps para tirar a foto desta reportagem. No calor de uma cozinha profissional, no h pintura que aguente. Em peles mais claras, os miasmas culinrios tambm deixam os rostos eternamente avermelhados. 
     Para ambos os sexos, a profissionalizao das cozinhas  um fenmeno relativamente recente no Brasil. As escolas de gastronomia por aqui s comearam a se estabelecer h quinze anos. Segundo um clculo feito por especialistas da rea, vai demorar pelo menos cinco anos para o nmero de chefs homens e mulheres com formao profissional se equiparar. A diviso de trabalho na cozinha tambm tem razes histricas: mulheres nas panelas do dia a dia, homens no comando dos ambientes mais requintados das casas senhoriais ou dos castelos e tambm no mais masculino dos ambientes, os exrcitos. "As mulheres sempre comandaram as cozinhas de casa. Mas foram os homens que deram origem s cozinhas industriais, especialmente nas duas grandes guerras mundiais", diz o professor de gastronomia Rodrigo Libbos. 
     "Preparo at 100 pratos por dia, e eles no podem demorar mais do que vinte minutos para ficar prontos.  difcil, mas eu tiro de letra. O que me deixa louca da vida  ir s mesas, para saber o que os clientes acharam dos pratos, e engraadinhos passarem cantadas, do tipo: 'No quer cozinhar s para mim, em Paris?'", conta Tas Bulgareli, de 26 anos, chef do restaurante Bodega Franca, em So Paulo. Orgulhosa criadora de um polvo com pur de pupunha e farofa de castanhas, ela no liga para as unhas sem esmalte, o cabelo sempre com marca de elstico e o cheiro de fritura. ''Muita menina entra nessa profisso achando que ela tem glamour. Imagina!", brinca Tssia Magalhes sobre os descuidos com a beleza e as exigncias da cozinha. "Nunca trabalho menos de dez horas por dia. Alex Atala s tem um no Brasil." 
     Ter o prprio empreendimento  o sonho de todas as aspirantes a chef, e uma maneira alternativa de conseguir isso est sendo desvendada pelas cake designers, ou boleiras, como se diz em linguagem normal. Mas no existe nada de tradicional na profissionalizao dos bolos, um ramo de forte presena feminina. Uma cake designer que atenda pessoas famosas e consiga uma lista de clientes da ordem dos 1000 ou 1500 nomes pode alcanar um faturamento bruto de 200.000 reais por ms. No se chega a esse nvel com receitas da vov, por mais deliciosas que sejam. Fernanda Rosset, de 26 anos, fez trs cursos em Nova York. Para dar conta da demanda de trabalho, abriu uma sociedade com duas amigas. 
     "O ramo das boleiras est dando certo porque no  uma profisso difcil de aprender, mas elas fazem produtos exclusivos, com ingredientes carssimos, algo que ganhou muito valor hoje em dia. Para quem souber investir, o retorno  timo", diz Rafael Barros, que d aula de confeitaria no Senac. Sobre os ingredientes: o chocolate  quase sempre belga e as flores vm do sul da Frana. Momento do susto: os bolos podem custar at 2000 reais. Os bolos de grife demandam um acabamento artesanal. 
     Por semana, a paulistana Manoela Andrade, de 25 anos, faz quinze bolos. Cada um leva quatro horas para ficar pronto e, nos mais requintados, ela vai  festa fazer o acabamento final. Tambm produz 1700 docinhos e 1000 brigadeiros para ser vendidos em sua patisserie, e abastece vinte eventos por semana. Com a prtica, pelo menos as boleiras modernas no precisam arriscar a silhueta e experimentar cada produto. 


6#7 CINCIAS  NA CAMA COM BILL GATES
O multibilionrio e generoso criador da Microsoft adota uma nova meta para sua fundao: revolucionar a maneira como se fabricam e se usam preservativos.
RAQUEL BEER

     As camisinhas provaram ser o mais eficaz mtodo contraceptivo e de preveno contra doenas sexualmente transmissveis (as DSTs). Apenas dois em cada 100 preservativos no do certo: rompem-se no ato sexual, escorregam e saem ou tm vazamento. Normalmente, os erros so resultado da m colocao. Quando a camisinha  usada da maneira correta, a taxa de preveno  de 98% (o melhor ndice entre mtodos do tipo). Por que, ento, diante de tanta eficcia, o multibilionrio americano Bill Gates, fundador da Microsoft e o segundo homem mais rico do planeta, resolveu investir em pesquisas que procuram revolucionar a forma como so fabricadas as camisinhas? O motivo  simples: 95% dos homens ainda no aceitam usar preservativos. Por meio de sua ONG, a Fundao Bill e Melinda Gates, ele promoveu um concurso para selecionar projetos de preservativos inovadores. Inscreveram-se 812 equipes de cientistas, das quais onze foram escolhidas, em novembro passado, para receber investimentos de 100.000 dlares cada. Os prottipos de camisinhas que se mostrarem eficientes em testes a ser realizados neste ano podem receber mais 1 milho de dlares para promover o incio da fabricao. Felizmente, a aposta da revoluo das camisas de vnus no diminuir os bilhes de dlares entregues pela fundao para a busca de uma vacina e outros recursos no combate  malria (veja abaixo). 
     As camisinhas de Bill Gates procuram responder s quatro maiores desculpas dos homens que se recusam a usar proteo. As alegaes: o preservativo no se encaixaria adequadamente, seria de difcil colocao, diminuiria a sensibilidade durante o sexo e poderia causar perda de ereo ao interromper o ato sexual. Nos Estados Unidos, 45% dos que no usam camisinha dizem que isso se deve ao fato de eles terem problemas para coloc-la. Preservativos que no so do tamanho ideal tm o dobro de probabilidade de se romper ou sofrer vazamento. Os africanos esto entre os que mais desprezam os preservativos. Um levantamento realizado na frica do Sul mostra o que est por trs da averso: 42% dos sul-africanos alegam que a camisinha tira o prazer do sexo; 43% dos homens acreditam que s pessoas que no confiam em seus parceiros a usam; e espantosos 14% deles acham que apenas quem tem aids se protege. 
     Diz o bilogo Stephen Ward, coordenador do projeto na Fundao Bill e Melinda Gates: "Muitos no adotam a camisinha mais por questes culturais enraizadas em seu comportamento. Por isso,  essencial recri-la, de forma que ela vire um produto atraente, em vez de ser vista apenas como algo necessrio, mas indesejado". Os onze projetos eleitos para receber o investimento inicial tm uma semelhana: so inusitados. O qumico indiano Lakshminarayanan Ragupathy desenvolveu uma camisinha feita de grafeno, material quarenta vezes mais resistente que o ao. O engenheiro qumico americano Mark McGlothlin, presidente de uma empresa de pesquisas mdicas, estuda fabricar uma verso  base de colgeno bovino (veja outros exemplos no quadro ao lado). A ideia  fazer um produto tecnicamente melhor, associado a uma cara futurista, capaz de convencer o pblico de que utilizar a camisinha  uma atitude genuinamente bacana. 
     Os homens comearam a adotar preservativos h 3000 anos. Os primeiros, retratados em tumbas no Egito, datam de 1000 antes de Cristo e eram feitos de revestimento de linho. Por mais de dois milnios, o objetivo foi principalmente um: cobrir o pnis para evitar engravidar a mulher. Demorou para o preservativo evoluir para o que conhecemos hoje, vendido a menos de 1 real a unidade em farmcias. Foi determinante para sua popularizao a descoberta do mdico italiano Gabriele Fallopius, no sculo XVI, de que ele tambm  til para evitar DSTs, como a sfilis. Outro fator fundamental para o sucesso comercial foi o comeo da utilizao de borracha na produo, em 1839, seguida pelo ltex  derivado da borracha , na dcada de 20. O produto foi aprimorado ao longo dos anos para ficar mais atraente: h verses com gosto, coloridas ou que esquentam durante o sexo. A partir da dcada de 80, a disseminao da aids fez ainda com que proliferassem campanhas apoiando o uso. Mesmo assim, a aceitao continua   pequena, o que ocasiona 86 milhes de casos de gravidez indesejada e mais 2,5 milhes de pessoas contaminadas com HIV (o vrus da aids) todos os anos. "Os nmeros provam que o investimento valer a pena, mesmo se vingar ao menos um entre os projetos, e assim conseguirmos fazer uma camisinha que passe a ser amplamente aceita", concluiu Stephen Ward, da Fundao Bill e Melinda Gates. 

A REINVENO DA CAMISINHA
Bill Gates investiu 1,1 milho de dlares em onze projetos de preservativo (e promete dar mais 1 milho de dlares para a fabricao de cada uma das camisinhas que se mostrarem eficientes). A seguir, as seis com maior chance de dar certo.
DE GRAFENO
A inovao: composta de grafeno, material derivado do grafite, ultraflexvel, superleve e mais resistente que o ao.
Vantagens: o grafeno  misturado ao ltex para criar preservativos finos, durveis e que conduzem calor com eficincia (o que aumentaria a sensibilidade no ato sexual).

MAIS ELSTICA E MAIS BARATA
A inovao: feita de superelastmero, material que pode se esticar mais do que qualquer outro j usado em camisinhas.
Vantagens: permite a criao de camisinhas mais finas e mais macias; e a fabricao ainda  mais barata do que com ltex.

REVESTIDA DE GUA
A inovao: combina-se uma srie de substncias qumicas que armazenam, entre uma partcula e outra, uma fina camada de gua por fora do preservativo de ltex 
Vantagens: o revestimento reduz a frico entre a camisinha e a pele, o que aumenta o conforto no uso.

DE RPIDA APLICAO
A inovao: a embalagem  um aplicador em forma de cpsula - o usurio rasga o recipiente e usa suas abas laterais para colocar o preservativo em trs segundos
Vantagens: alm de a aplicao ser rpida, o mtodo facilita o uso em ambientes escuros e diminui o risco de a camisinha romper-se durante o sexo, falha responsvel por 15% dos casos de gravidez no planejada.

AJUSTADA  PELE
A Inovao: tem um tipo de poliuretano que reage ao calor do corpo
Vantagens: o poliuretano se aproxima da pele conforme ela esquenta com a frico do ato sexual, o que possibilita a fabricao de camisinhas de tamanho nico, capazes de se adequar ao formato do pnis.

FEITA DE BOI
A inovao: usa-se colgeno de tendes bovinos na fabricao
Vantagens: o colgeno garante uma textura hidratada e pouco spera, que se assemelha  da pele humana. Em teoria, proporcionaria uma experincia agradvel durante o sexo (ainda ser testada na prtica).

ADESIVO CONTRA MOSQUITOS
O foco principal da fundao de Bill Gates  a melhora das condies de vida em pases pobres, principalmente no que envolve a ainda precria sade de africanos e asiticos. A meta mais ambiciosa  erradicar a malria. Gates investiu, por exemplo, ao menos 100.000 dlares em pesquisas acadmicas que criaram uma substncia capaz de desorientar a habilidade de mosquitos de detectar o dixido de carbono emitido pelo corpo humano (o que atrai os insetos). Essa tecnologia foi concedida  Kite, startup americana que criou adesivos com essa substncia e que, para dar incio  fabricao, levantou mais de 500.000 dlares doados por 11.000 pessoas por meio de um site. Em breve, o produto ser testado em Uganda, na frica, onde 90% da populao  atingida pela malria, doena que todos os anos mata 660.000 pessoas no mundo. 


